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13.2.08

Império dos Sonhos

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Império dos Sonhos
(Tit. Original: Inland Empire)
Dir. David Lynch

Não tem coisa mais chata do que ouvir os sonhos alheios, afinal por mais que o narrador se esforce eu nunca chego na sensação ou na indagação que esse emissor pretende passar. Agora pegue uma câmera Sony PD-150 e coloque nas mãos de um diretor de cinema que já se tornou adjetivo. Trata-se de “Inland Empire” a última e mais estranha viagem de David Lynch no mundo do cinema.

Lynch não é um estranho para nós afinal foi ele que filmou “Twin Peaks” sem essa série talvez jamais tivéssemos “Lost”, “Law & Order” e “Arquivo X”. Esse diretor faz parte de um movimento (mesmo que sem essa pretensão ou denominação) de artistas igualmente inventivos, conspiratórios e, sobretudo críticos são eles: Chuck Palahniuk (autor de Clube da Luta), David Shrigley (e seus desenhos de crianças assassinas) o projeto musical Aphex Twin ou em alguns autores de mangas. Esse universo bizarro e lúdico esta em toda parte e chega em seu ápice maior na obra de Lynch.
Estamos vendo os delírios de uma atriz que sonha, que esta sonhando coisas em relação a sua vida, à de seu personagem e talvez personagens passados. Não podemos chamar de simples sonhos, mas pesadelos, pequenos fragmentos, pequenas cenas construídas de forma aleatória onde o mais interessante é assistir a cada fragmento como uma pequena peça textual imagética isolada. Dentro dessa pequena “peça” a única certeza que teremos em relação as intensões do diretor é que ele se recusa a aceitar que existe qualquer coisa parecida com aquilo que se costuma chamar verdade realista. E logo no começo do filme a personagem de Laura Dern (que esta excelente e merecia muitos prêmios) diz: “Eu não sei o que veio antes ou depois. Não consigo distinguir o ontem do amanhã e isso está fodendo com a minha cabeça”.

Cinismo, conspiração e várias alfinetadas na indústria hollywoodiana não faltam nesse que é o mais nebuloso filme de Lynch desde “Estrada Perdida”. Onde o diretor nos apresenta personalidades afetadas, prolixas, assustadas, enciumadas, enfim recheadas dos sentimentos mais ordinários e corriqueiros do nosso cotidiano. Destaque para a cena onde um personagem sempre se coloca como um pobre coitado e consegue tirar dinheiro de todos os seus companheiros de Set de Filmagem, não que seus colegas de trabalho realmente se importem, mas com certeza prezam por passar uma imagem patética de politicamente correto, o grande mal de nossos tempos.

“Império dos Sonhos” fala da indústria cinematográfica, sobre a traição num relacionamento amoroso, sobre o desejo íntimo de uma atriz atormentada por suas inseguranças, sobre como construímos a nossa auto-imagem social, desestrutura conceitos rígidos de bom e mau comportamento. Isso tudo e não necessariamente nessa ordem e sem nenhuma resposta ou apologia concreta. Se o cinema americano tem que ter um sentido e um ponto final, a obra de Lynch não. E os risos na sala de estar da família coelho devem ser o nosso inconsciente rindo de nós mesmo, tamanha é a expressão de perplexidade dos espectadores na sala de cinema.



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