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4.2.10

Onde Vivem os Monstros

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Onde Vivem Os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009)
Dir. Spike Jonze



Baseado no livro infantil escrito e ilustrado por Maurice Sendak, Onde vivem os Monstros (2009, EUA, 101 min), com roteiro de Dave Eggers e direção de Spike Jonze, transforma as pouco mais de dez frases do original em um longa, fiel ao conceito de Sendak. O filme traz criaturas que são mais tristes do que verdadeiramente monstruosas (ou mesmo ameaçadoras, como se especulava). Neste sentido, aliás, os primeiros elementos de produção que merecem destaque são os bonecos, as dublagens e a direção de arte com sua paleta de cores monocromáticas, ambientes desérticos e árvores desfolhadas, que vão desenhando um mundo construído pelo personagem central da trama , o pequeno Max. Além da excelente trilha sonora, que cabe como uma luva, feita por Karen O do Yeah Yeah Yeahs. Todos esses elementos combinados contribuem para que vejamos aqueles seres não como bichos absurdos, monstros fantasiosos, mas como indivíduos, com personalidades e angústia próprias.

Max é um garoto sensível, criativo e que se sente sozinho, pois sua irmã mais velha tem seus próprios amigos e sua mãe um namorado. Imerso nas dificuldades do mundo adulto, que observa mas não consegue entender, Max foge envergonhado após um desentendimento com sua mãe e acaba encontrando um lugar habitado por criaturas aparentemente assustadoras e com uma inteligência peculiar. A partir daí, o filme percorre o universo psicológico de Max como estrutura narrativa do próprio filme, levando a uma viagem de autoconhecimento. E conforme cada um dos monstros vai sendo revelado, vai-se percebendo que cada um deles é uma projeção da personalidade do protagonista. Carol é seu lado mais criativo, ambicioso, egocêntrico e esperançoso; KW é sua curiosidade, sua vontade de conhecer possibilidades diferentes, e também uma alusão à sua mãe e à sua irmã); Judith é seu lado carente, cético, mas também inquieto e ególatra; Ira representa seu lado criativo, amigo e inquisidor; Douglas é o amigo condescendente, que busca apaziguar as relações; Alexander é a insegurança e o desejo de ser reconhecido; Bull sua introspecção e sua solidão. Essas são algumas características das distintas personalidades do garoto.



Essa fuga fantástica parece uma intensa auto-avaliação, algo que o garoto precisa fazer para entender as transformações que estão acontecendo à sua volta. Atenção especial à primeira parte do filme, antes de Max embarcar em sua viagem ao mundo em que as coisas são selvagens: por exemplo, a brincadeira dos monstros de se empilharem sem machucar ninguém, esta diretamente ligada ao episódio dos amigos de sua irmã terem destruído seu iglu. Carol conta que teve um pesadelo com sua dentição e Max havia criado uma história em que conta para sua mãe sobre um vampiro que perde sua dentição ao morder um prédio e é abandonado por seu grupo (a mesma insegurança que existe em relação a Carol e seus amigos monstros e de Max com sua família). Ou quando KW joga pedras em suas amigas corujas, como na batalha de bolas de neve e mais ele não ouve ou não entende o que os jovens estão conversando e quando, machucado, chora, esperando atenção; é assim que Carol se sente por não entender porque seus amigos monstros simpatizam tanto com as corujas, com quem ele não consegue se comunicar. As brigas entre Carol e KW, podem supostamente ser uma alusão ao divórcio, subentendido, que seus pais estão enfrentando.



Os símbolos não param por aí: a construção de um “forte”, como um local apropriado para que possam viver juntos representa o incansável desejo do garoto de reunir a família e de se entender com seu mundo e os indivíduos que existem nele. Nesse “forte” não é permitido à entrada de estranhos, acreditando assim que são eles os responsáveis pelo desequilíbrio e divergências do grupo, mas ao contrário do que Max esperava, são as expectativas inesperadas que fazemos dos outros e de nós mesmos, é que causam a decepção e a falência das relações.

O inferno sentimental e árido das emoções ganha beleza nas brincadeiras primitivas do grupo de Max no qual ele é condecorado rei, mas não consegue corresponder às expectativas de seus novos súditos. Destaque, ainda, para cena em que o próprio Max insiste para que o mais calmo dos monstros atinja o mais indefeso, que já se encontra machucado, numa guerra de côco.



Onde vivem os monstros é uma perfeita fábula sobre o crescimento, sobre encarar o mundo e as pessoas e a responsabilidade de não magoá-las. Como afirmou o diretor Jonze, “não se trata de um filme infantil, mas um filme sobre a infância”, de como ela é perturbadora, inconstante, cheia de surpresas e, ao mesmo tempo, cruelmente bela.

6 comentários :

Guto Pontes disse...

Adorei.... É o Anticristo mais infantil....

Anônimo disse...

RESENHA DA PORRA, MUITO BOM. ESSE BLOG É FODA!

Julio Carvalho disse...

Para "Onde Vivem Os Monstros"
Quem

Quem nunca brigou com o mundo e ficou de mal até o fim dele mesmo milhares de vezes até sem saber onde ia e porquê isso sempre acontecia e depois dizia tá bom já passou?

Quem nunca quis ir parar no mar e começou a cantar música de pirata e bandido fazendo barulho e imitando mergulho e ficando cansado de tanto remar?

Quem nunca foi parar numa ilha distante e deserta ali mesmo do outro lado da rua da sua enxurrada na lama que sempre virava um riso divertido que navegava na hora certa?

Quem nunca fez uma casa de pano e papel e luz elétrica de fio improvisado tendo dormido uma noite inteira dentro e ficado com medo?

Quem nunca teve amigos monstros horríveis
visíveis-invisíveis daqueles mais feios impossíveis mas bonitos por dentro e que quase sempre contavam histórias incríveis?

Quem nunca teve um grande segredo escondido daqueles enormes que depois revelados não eram mais nada só grande piada e todo mundo olhava e dava risada?

12 de janeiro de 2010 22:46

JULIO CARVALHO disse...

muitotanto
sem palavras:

paixão maior é coisa
que não cabe num poema
acendo a cidade para explicar tudo
isso
não é coisa que se cheire
é coisa de sentir
e ninguém
ninguém mesmo
tem nada com
isso

Givago disse...

Como sempre vc e seus comentários poéticos. AAAAAAAAAUUUUUUUUU

DOUGLAS >>> - SJRP- SP disse...

Graças a um fantastico "campo" podemos desfrutar desta coletividade de pensamentos e idéias, sensações e emoções; e perceber que nossas afinidades de alguma forma podem ser medidas por esta partilha de impressoes!
Agora eu ja me sinto melhor porque não vou mais precisar sufocar meu uivo e ser mau interpretado Rs!

Quem mexeu no meu ipod?
ta bom vai fui eu !!!!
sempre
Te adoro YURI !!! RSRSRSRS